Por que compartilhamos nossa vida online

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O uso de redes sociais e todo o compartilhamento da vida pessoal online tem sido objeto frequente de críticas e análises, tanto de especialistas quanto de pessoas comuns (que, em alguns casos, são também conhecidas como especialistas em fazer textão sobre tudo).

Uma crença comum é a de que todo esse oversharing esvazia as relações off-line: as pessoas estariam interagindo apenas sob mediação da internet, o que resulta em relações superficiais e frias. Embora isso possa ser verdade em alguns casos, um estudo recentemente publicado no New Media & Society aponta para outra direção.

Entre 2010 e 2015, pesquisadores entrevistaram 2.789 estudantes universitários estadunidenses de cursos de comunicação com idade entre 18 e 25 anos. As perguntas envolviam seus hábitos no Facebook e sua atitude em relação à sua própria privacidade tanto na internet quanto no mundo off-line.

O resultado? Os usuários mais frequentes (ou heavy users) do Facebook – definidos pelos autores como aqueles que ficam uma média de 3,17 horas por dia acompanhando os posts de seus amigos e compartilhando informações sobre si próprios – tendem a manter uma atitude mais relaxada em relação à sua privacidade e compartilhar mais sobre sua vida também no mundo off-line.

“As pessoas às vezes não percebem o poderoso papel de socialização das mídias sociais”, diz uma das autoras do estudo, Mina Tsay-Vogel, professora assistente de comunicações de massa na Faculdade de Comunicação da Universidade de Boston e co-diretora do Centro de Pesquisa de Comunicação.

Mas há um outro aspecto revelado no estudo. Essa atitude mais desencanada em relação à privacidade dos heavy users de redes sociais reflete, segundo os autores, um conceito chamado “Teoria do cultivo”, já abordado por eles em um estudo anterior envolvendo os efeitos de se assistir à televisão.

Percepção de mundo

Segundo essa teoria, quanto mais tempo os espectadores passam assistindo a um mundo específico pela TV, mais eles acreditam que a realidade se assemelha a esse mundo. Os pesquisadores observaram que as pessoas tendem a achar que a TV reflete bem a realidade, e o mesmo pode estar acontecendo em relação à internet. Para Tsay-Vogel, os usuários das redes sociais desenvolvem uma expectativa de que a divulgação de informações faz parte da cultura on-line, e por isso talvez se empenhem nesse comportamento sem questioná-lo.

“Quando você está nas mídias sociais, também está envolvido no comportamento de auto revelação, e está vendo o que as pessoas estão revelando sobre si próprias”, diz ela. “Todo esse ambiente está nos contando uma história sobre o mundo virtual: que a auto revelação não está apenas em toda parte, mas que todo mundo se envolve nela de alguma forma, para ser gratificado através desses sites de redes sociais”.

Segundo ela, os próximos passos da pesquisa envolvem responder algumas perguntas: “Podemos estudar a auto revelação mediada? E como, com o tempo, as mídias sociais realmente cultivam nossas percepções da realidade?”. Além disso, o que exatamente significa revelar informações pessoais para esses usuários? Eles encontram conforto e apoio compartilhando sua vida ali?  Aguardemos cenas dos próximos capítulos.

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